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Diálogos 001

- E a madrugada? - Pra escrever, claro! Entreter-se, ater-se, sonhar... - Então dorme? - Não. Sonhos não se dão fechados por trás dos olhos. Sonhos são despertos... - Manhã? Luz do dia? - Noite, alvorecer, deixar-se perder, esquecer... - Memória de certo? - Certo!? O que é certo? - O que não é errado? - E o não errado? Não o sendo, não seria certo? - O não certo... Errado? Não errado? - A palavra perdida na encruzilhada do pensamento. Entrou num caminho não seu nunca antes trilhado... - Poema? - Murmúrios da noite. - Madrugada então? - Tempo pra escrita, pro grito, pro perdão... Mergulho dentro de si. Tinta a se derramar sobre o papel... Madrugada então. Significada em letras soltas. - Sonho? - Por acaso viu fechar os olhos? - Mas não disse que o sonho não se dá fechado em olhos!? - De certo que não! Lisbella Lispectra

O que é o X dentro de uma equação?

Afunde essa adaga em meu peito! O que lhe impede? Vejo em seus olhos que também crê em mistérios Quando não sou nenhum... Espero pelo dia em que descubro não ser tão forte (não como todos pensam) Espero pelo golpe que será o fatal, Enquanto estás aí a desvendar o indesvendável... As muralhas construídas não foram exploradas. Os olhos dão passagem à alma. O SER explica a solidão. Embora caminhe ao meu lado, não me vê E aponta ao invisível esperando que se defenda Cobra da face ao espelho: "Quem é você?" Golpeie-me! Uma hora há de parar de sangrar E quem sabe eu me encontre aí? Toda sangue ao chão, para finalmente ser eu Vista, entendida, misturada... Não mais equação. Não mais um mundo meu em mim... Sangre! O que há dentro (ex)posto pra fora. O que há dentro? Desmistifique esta equação Nomeie o "x" Milene Paula (ou não)

Não gosto da visita da morte

E sorrateiramente a morte estava a sondar meus pensamentos... Abanei... Deixei pra lá. Na TV o anúncio da morte de um grande líder. Entre nós (não menos líder) um pai, avô, tio-avô e, recentemente, bisavô. A morte não é ímpar. Costuma levar consigo mais de um exemplar... E, quando mexe com família, família grande, triplica o derramar de águas... O lembrar de momentos... Torna ainda maior a saudade. Não me agrada a visita da morte. Nunca se sabe a melhor maneira de servi-la... O que ela leva nunca é pouco. Muito se paga ao ceifador. Estremece a ideia de fechar os olhos pela última vez... E ela estava a me sussurrar... Tenho medo desse diálogo com ela. Prevê-la. Entendê-la. Esperá-la... Embalou meus sonhos. Tomou um café, embora tenha pedido por chá. E, surpreendeu-me pela manhã. Espere... Já é noite. Ela costuma carregá-los a noite para que os chore pela manhã... Quase todos eles chorados nas manhãs. Não me agrada a visita da morte. Chega. Senta-se. Não balb...

TPM TPM TPM TPM ...

TPM sonolência TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM tpm  TPM TPM   TPM  depressão TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM tpm TPM TPM   TPM TPM   TPM fome monstra TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM tpm  TPM TPM    TPM TPM   depreciação da autoestima TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM tpm  TPM TPM   TPM TPM   irritabilidade TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM tpm  TPM TPM   TPM TPM   agressividade TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM tpm  TPM TPM   TPM TPM   instinto assassino TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM TPM...
C orpos, corpos sobre mim, ao redor de mim, por todos os lados... Ar ansiado numa crise  asmática. Ar contido mas, suposto, inexistente. Realidade aumentada, realidade  exagerada, realidade pútreda... Tive por instantes mil fobias reprimidas afloradas de uma só vez, por conta do ar bactericida lançado em minha face sem pudor. Cega. Mil imagens desenharam-se em cada tossir, em cada sopro seu de ar. Mil imagens de ti sem ele, engasgado, contorcido, caído... Sim! Ponha-se a parir matriarca do consumo! Aborte sobre nós toda essa ilusão de melhor! Pra quem? Que brote sobre teu chão cinza milhares de latas menores, caixões ao trabalho não findo sobre morrer... Quanto a ti, desejo-te fatiado e exposto para servir de refeição a mesma colônia que me obrigou abrigar... Assisti-lo definhar junto a essa sociedade enlatada, e eu, saciada, obterei prazer em sua dor. E sofrera calado junto aos outros, engaiolado nesta dita condução pública. Lisbella Lispectra

Abstinência

- E pode isso? Abstinência de gente? Uma falta que corrói, destrói e dilacera. Querer improvável. Querer o que não se tem e não se sabe se terá. Querer e saber não poder estar, contar, ouvir, consumir, sufocar... A necessidade de devorar a presença do outro. - Oxênte! Coisa de doido! Querer devorar gente. Embeber presença, toque, perfume, pensar... Mas saber, abnegar... esquecer... deixar ir... Já que és tão claro quanto ao não querer ficar. O responder não perguntado dito em silêncio. Reação em cadeia - Segregar - Abnegar - Dormir E esperar que amanhecer desfaça a dor Carregue consigo todo o sentir que se proíbe a mim Pois, por hora, o que tenho é “dezenamente”, “centenamente”, “miliamente”... abstinência de você - Mas menina, e pode isso? Abstinência de gente? - Pode. E não se atente não pra tu ver! Milene Paula

Caído

Você pisca e bum está no chão sem saber o que o derrubou. Levanta um pouco a cabeça, olha de um lado pro outro. Sacode a poeira e segue. Passado um tempo isso se repete. Cai. Olha de um lado pro outro. Se levanta... Cai. Olha de um lado pro outro. Se levanta... Cai. Olha de um lado pro outro. Se levanta... Cai. Olha de um lado pro outro. Se levanta... Cai. Olha de um lado pro outro. Se levanta... Cai. Olha de um lado pro outro e se levanta? Agora percebendo que muito de si ficou no chão e está pisoteado, sujo, despedaçado. O que lá está, caído, não se recompõe, não reagrupa, não mais faz parte. Você caiu e olhou para o que não é mais, o que nunca será, o que talvez fosse e agora não reconhece. Está ao chão caído, pisoteado, sem poder olhar de um lado pro outro, vendo solados afundando-te, com braços e pernas que já não reerguem, pois, não há corpo, não há razão pra sair dali. Agora é chão como pode ser novamente algo que cai, olha e levanta? Não a pra que... Milene Paula