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DESASTRE NATURAL

Estamos em meio a uma onda que não se pula, e nem se surfa. Bem semelhante a um tsunami. Perdemos as contas dos dias que acreditávamos ser finais. Ingenuamente, dizíamos: “novo normal”. Esperança... O que esperávamos? O que ainda esperamos? A cura!? Um milagre!? Quem sabe somente respeito pela vida, pelas milhões de vidas. Parar a morte... Parar a fome... Fechar os olhos e quando abrir, ver que a tempestade passou. Que o pesadelo não pode te alcançar, agora que seus olhos estão abertos. Aquele chacoalhar que te desperta, acompanhado de um “estou aqui”.   Não há abraços... Não há voz... Não há despedida...   Esse pesadelo já passou de trilogia. Já é muito mais do que uma sequência ruim. E foi filmado em 3D. Batem na porta, e ninguém atende. Os corpos vão chegando, vão chegando, vão chegando... E são deixados na calçada. Estamos lotados. Não há vagas.   Um grito abafado. Outra pá cheia de terra. - Por favor, um prato de comida!   Festa...

COMO É NÃO SE IMPORTAR?

Tenho evitado pensar para não ser avassalada pelas palavras, pelos pensamentos que não permitem que os olhos se fechem, mas, cada pro-nun-ci-a-men-to reflete a dor da facada que não sangrou... Como se calar diante de tantas palavras e inações que “fingem” serem sem propósito. Propósito há, mas não é em prol do bem, e nem de mim ou de você. “E daí?” Não assumir um lado ou crer que só há um lado que reflita o “bem maior”, tem superado o que creiamos ser o fundo do poço. O “eu avisei” deu lugar ao “a culpa é sua”, sim, porque a escolha foi consciente. Queriam alguém que desse vazão aos seus monstros. Queriam e querem muitos dos nossos mortos. E estamos morrendo... Mas, nem imaginam quão fortes os que sobreviverem serão. “Vocês vão ficar chorando até quando?” Quase 300 mil mortos (SÓ por Covid) e nossa dor, como sempre, é resumida a mi mi mi. E há os que defendem o indefensável. Como coloca a cabeça no travesseiro e dorme? Eu estou a meses sem dormir. De mãos atadas. Contando os corpos...

SABE NOS SONHOS...

  Sabe nos sonhos? Quando a gente grita e não sai som algum? Estou num desses sonhos. Só que não sei se é o som que não sai, ou se eu quem já desistiu de gritar, já que ninguém vai ouvir.   Afinal, tudo está dentro. Tudo é. Tudo sou. Tudo soa. Ressoa. Vibra.   Perdida em outra dimensão. Imersa em mim.   Quisera tudo fosse apenas um sonho, porém, ao final da queda, cai-se em si, e acordamos pro real.   Sabe nos sonhos? Já não grito. Aprecio a queda. Porque não sei quando chegará o dia em que não será mais possível acordar.   Tudo o que há de concreto é esse instante de dúvida.   Vida e morte. Aqui e agora.   O fôlego antes do grito final.   Sonho. M.P. 2020

QUANDO EU ME DESCOBRI NEGRA

Muitos vão dizer: “Nossa! Como assim se descobriu negra?” Exatamente. Por isso, eu tentarei explicar aqui um cisco da necessidade de se descobrir ser o que se é... Quando eu me “descobri”. Porque a gente nasce negro, porém, só se descobre negro quando aceita esse fato, não como algo punitivo (como nos fazem pensar durante grande parte da nossa vida), e sim, com consciência de ser. O atual “empoderamento”. Pois, nos tiram tanto... Nos minimizam... Nos hiperssexualizam... Nos rebaixam a condição de coisa, de objeto, de só mais um corpo, de mais um número dentro das estatísticas... Que a gente nega o que é, até mesmo sem perceber, para tentar que nos percebam e nos aceitem, e aí, deixamos de ser... Então, sim! A gente precisa se descobrir negro. Se apropriar do direito de ser gente. Ser a gente mesmo, e se saber lindo. A primeira vez que eu olhei no espelho, e pude me orgulhar do que eu via, é uma lembrança pertencente a um futuro muito mais recente do que eu gostaria que foss...

O LADO B DA RELAÇÃO

Crescemos ouvindo: “... e foram felizes para sempre”. Mas, ninguém nos diz o que acontece quando o encanto acaba. Quando deixa de ser novidade, e nos encontramos nus (não de corpo), mas, de alma. Portanto, em vista disso, eu gostaria de falar aqui sobre o lado B da relação. Aqueles dias de mau humor, de querer ficar num canto na sua, o não querer dar o braço a torcer, quando as longas conversas se tornam apenas algumas frases, ou mesmo sílabas soltas. Quando você para e pensa: “será que vale mesmo a pena?” “Até que ponto é cuidado, resiliência?” “Até que ponto é comodismo?” “Medo de ficar sozinho?” Por que não se diz o que acontece depois, quando, claramente, não é um conto de fadas? Os opostos não se atraem! Cada ser é único. Completo. E tudo o que ele quer é partilhar. Doar um pouco de si. Ensinar e aprender com o outro. Lindo, né? Não é! Você só acessa o outro o quanto ele permite. O quanto ele quiser que você saiba e/ou conheça. E aí está o lance. Relação é estar disposto. ...

INVISÍVEL CAOS

Uma respirada funda, e um fechar de olhos. De repente, tudo fora um sonho. Será? Abro os olhos devagar. Silêncio. Anúncio de um isolamento. O invisível está nos matando. Aliás, o invisível sempre nos matou. Respiro len-ta-men-te. Na tentativa de tranqüilizar os pensamentos. Tentando que o contabilizar de mortes diário não me mate ainda mais aqui dentro. E há tantos corpos lá fora... Roleta russa. Medo. Ansiedade. (In)credulidade. E muitos que antes já eram margem, tão invisíveis quanto àquele que nos abate, estão ainda mais apartados. Vírus visível dessa doente sociedade. Chegamos a divisa da humanidade. Quem é você? Estamos dentro, forçados a olhar para dentro. Gosta do que vê? Lave as mãos. Pilatos lavou e o Salvador foi dado à morte. Muitos não creram, muitos ainda não crêem... Fecho novamente os olhos, numa prece silenciosa. Busco um fio de esperança. Quantos dias mais? Caímos um a um, sem ar. Respiro. Será? Máscara. Álcool em gel. Dis-tan-ci-a-men-to. Quantos abraços não d...

Eu!?

Eu!? Eu sempre detestei espelhos. Sempre me sentei no fundo. Sempre me posicionei atrás nas sequências coreográficas. Eu!? Sempre preferi roupas largas a justas. Sempre optei por cores neutras. Sempre caminhei de olhos baixos e fones de ouvidos. Eu!? Nunca me imaginei destaque. Nunca me entendi bonita. Nunca seria o amor de alguém, mas sempre, a amiga. Eu!? Menina mulher da pele preta. Sempre objeto, nunca afeto. Sempre conselho, nunca plano. Sempre "um dia quem sabe". Eu!? Sempre soube que teria que me esforçar muito mais para ser mediana, pois, o ótimo não era pra mim. Eu!? Sempre achei que tudo bem não gostarem de mim, afinal, eu nem era bonita, nem feminina. Eu!? Sempre tentei caber nos lugares. E nunca fui, por muito tempo, de lugar algum. Vaguei. Apenas existi. Eu!? Por muito tempo me anulei para ser quem queriam que eu fosse. Eu!? Não entrarei em por menores, porque ainda tem gente que acha que a solidão da mulher negra não passa de mais um "mi mi mi",...