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Clichê

Daí você se dá conta que nem tudo é um clichê. De que você, realmente, só vai dar valor quando perder, ou melhor, quando vir partir, aos poucos se afastar... Não gosto de clichês tornados letais. Estava parada ali, a ouvir ao longe o jogo de diálogos. As palavras que se cruzavam por entre olhos, mentes e bocas. Cercada de seres pensantes e delirantes. O gosto era bom! A sua mente mesmo, talvez não estivesse ali, não sabia ao certo. De repente, as palavras tornavam-se riso, e também isto era bom! Sorriu. Por pouco tempo, voltou. Interagiu. Olhou. Às vezes, outros olhos olhavam de volta... Às vezes, outros olhos requeriam atenção, para algo que estava sendo dito. Tão diferentes e tanto em comum... O não misturar de “núcleos” se faz misto sem perceber, alguns passos e estão todos ali, a debater. Percorrendo caminhos diferentes ao destino comum (inconsciente coletivo) – tudo converge à busca. Somos seres em ebulição. Todos se conhecem sem se pertencer... Não sei o que este ...

Eles não terminam comigo (nunca sei quando é o fim)

Corria, pois, já era avançada a hora. Porém, o bilhete numerado em sua mão lhe garantiria um lugar. Chegara. Sem muita dificuldade encontrou seu aconchegante assento. Ficara entre pessoas interessantes e, por ainda restarem minutos, conversou, conheceu, se encantou... Os três sinais soados pediam silêncio. Os três sinais soados diminuíam a luz. Os três sinais soados davam permissão de ver além das cortinas. Iniciou-se o espetáculo. Durante uma hora, uma hora e meia, esteve ali, envolvida. Aí então, o bailarino veio até a beira do palco, olhou diretamente para ela, e sorriu. Não reverenciou, a música não parou, a luz não se apagou... Veio a beira, olhou, e sorriu. Feito isto, as cortinas fecharam-se num baque, e a luz se acendeu. Não houve aplausos. Estava ali sozinha. Ninguém lhe disse adeus... Mal refeita, as luzes começaram a se apagar, uma a uma, indicando que já não era bem vinda. Hora de sair. Fim. Sem maiores explicações. Milene Paula

Dos relacionamentos que não tive...

O que se esperar de uma relação? Como se portar em uma relação? Cedo eu ou, cede você? Um doa mais que o outro? Um priva-se de SER para que possa SER o outro?... Não sei. Sei que, dos relacionamentos que não tive, aprendo, dia após dia, a me relacionar. Onde muitos zeram em redação, duvida-se que interpretem coisa alguma. A muito que não leem os sinais. A relação é virtual. E o toque é "screen"... O olhar não se ergue, então, como espiar o reduto da alma e dizer: "eu te amo" (é o novo "bom dia" não dado ao porteiro), convencional, cômodo. Dos relacionamentos que não tive respeito, ouço, zango, aconselho e espero. Sinais dos tempos. Tempo não visto, JUNTO. Tempo sabido, SÓ. Só damos valor quando perdemos pelo não conhecimento de que ganhamos. Relacionar é aprendizado, conquista, e muita paciência. Pois, andar junto requer sincronização, tropeços, auxílio, espera. E não se espera por mais nada... Tudo é pra ontem. E ontem, você deixou passar sinai...

HÁBITO MAL APTO

Estão tão acostumados ao amor, a serem amados, que são ignorantes aos que não são. Àqueles que dormem e acordam sozinhos que são sozinhos em sonhos... Àqueles que não fazem falta... Estão tão acostumados ao amor que o não amor, soa estranho, errado. Não amar é uma doença, ou melhor, consideram “impossível” ao não amado não ser amado por ninguém. Só o sabe quem está entre os que não têm amor. Ao outro é estranhismo, irreal. Só o sabe... Quem acorda todos os dias sem expectativa. Quem em noites de frio procura por mais um cobertor. Quem sempre confirma a reserva pra um. Quem suspira à lua ou ao deitar do sol somente pela beleza do fenômeno. Quem caminha com suas mãos nos bolsos ou de braços cruzados ao peito. Estão tão acostumados ao amor que repudiam a tentativa de ser feliz sozinho. O outro já derramou mais lágrimas do que podia computar. Não está sozinho por não tentar. O está pelo querer não mútuo, por toda dor virar poesia, pela cruz que é capacitado a c...

SEM DEDICATÓRIA

Eu sou assim. Poema sem dedicatória. Palavras sem destino algum. Emudecida de um sentir privado. Não gostando por proibição. Ensaiando diariamente estar bem, pois, não caibo no propósito. Não caibo em pulsação. Só. Na ilusão do ainda acreditar. Tentar... Coitada... Eu sou assim. Palavras não ditas e decifradas. Eterno trilhar solitário. Noite. Poemas vãos. Olhares não mais cruzados. Segredos não confessos. Nenhum roçar de mãos... Mandam. Obedeço. “Não quero você!” Não precisou nunca ser dito por boca. Vêm em não gestos. Vem em não estar. Vem em forma do não querer de ti – Eu... Sou assim. O ninguém de muitos alguéns. Poema sem dedicatória. Noites em solidão. Pura compreensão de estar só. Milene Paula

Qual o sentido da vida pra você?

A única certeza que temos é a de que um dia vamos morrer. Errado. Negamo-nos a ver que para continuarmos vivos, temos que envelhecer. E isto, embora, sabido, é negligenciado. Buscamos formas de “retardar” o envelhecimento, para prolongar a vida (irônico o ser humano, não é?). Prolongar a vida é prolongar o ato de envelhecer. E por que razão será que isto nos assusta? Eu gosto da forma como os meus textos alimentam-se para serem escritos. Gosto das coisas, formas e imagens que provocam meu descodificar. Hoje foi um seminário sobre “envelhecimento”.  Um seminário!? A gente nunca espera que um seminário seja algo provocador, ao menos, eu não esperava que assim o fosse. Surpreendi-me! Quando algo me põe a refletir... Escrita. Ma-tu-ra-ção. Voltemos ao velho. Soa ruim, né? Velho. Como algo que não se quer, não se deseja, não orna, não brilha. Como algo que não é, e nunca se quer ser. A partir do momento em que se nasce já se caminha a ser velho, ao envelhe...

MENINA MULHER DA PELE PRETA (lado B)

Meus textos andam meio “desabafos” e eu desgosto até a página 2 desta constatação. Existem assuntos difíceis, e existe a necessidade de se expelir o que lhe incomoda. Assim como no nosso organismo, um corpo estranho é repelido, bloqueado, inutilizado. Meus textos não são raciais. E não se pressupõe, por um texto, a qual “raça” pertença seu escritor. Mas, o teor do desabafo faz com que se necessite dizer, jogar pra fora. - Sou negra. (e ser negra não (d)(es)gosta, também, até a página 2) Muitos acreditam que o preconceito racial está findo, diminuído, arquivado. Parafraseando a virtualidade – “só que não”. Faz-se parecer tão sutil que fica fácil acreditar. Alguns textos saem porque martelam tanto na mente, tanto... Alguns textos saem porque o peito fica pequeno e a mente se perde em devaneios “down”. E fechar-se em feto não é a solução. Se ponho-me ao vômito muito já degustei sem sabor... Ver de fora sempre foi mais simples. As pessoas olham e apontam as “corr...