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Caído

Você pisca e bum está no chão sem saber o que o derrubou. Levanta um pouco a cabeça, olha de um lado pro outro. Sacode a poeira e segue. Passado um tempo isso se repete. Cai. Olha de um lado pro outro. Se levanta... Cai. Olha de um lado pro outro. Se levanta... Cai. Olha de um lado pro outro. Se levanta... Cai. Olha de um lado pro outro. Se levanta... Cai. Olha de um lado pro outro. Se levanta... Cai. Olha de um lado pro outro e se levanta? Agora percebendo que muito de si ficou no chão e está pisoteado, sujo, despedaçado. O que lá está, caído, não se recompõe, não reagrupa, não mais faz parte. Você caiu e olhou para o que não é mais, o que nunca será, o que talvez fosse e agora não reconhece. Está ao chão caído, pisoteado, sem poder olhar de um lado pro outro, vendo solados afundando-te, com braços e pernas que já não reerguem, pois, não há corpo, não há razão pra sair dali. Agora é chão como pode ser novamente algo que cai, olha e levanta? Não a pra que... Milene Paula

SER HÍBRIDO

Cruzam meu caminho algumas pessoas “únicas”, iluminadas, verdadeiras, fortes... Pessoas que me fazem querer e ser melhor. Por isso, sim. Estou cansada. Cheguei cansada. E muito do que aqui se relata, no caminho já se perdeu, por outrora ter sido pensado e, como já foi pensado, agora perdeu pureza... Mas não importa, por momentos assim, pessoas assim, as palavras merecem ser posterizadas. Vale estar agora aqui consumida por um instante bom. Ao sair disse-me “diga”, e só assim sei dizer, em letras e não em som ou pronuncia, em palavras que me escorrem e gritam. E digo assim, vorazmente, sedentamente, por ter sido provocada. É, pro-vo-ca-da. Como a muito não sou e de maneira que me agrada. O provocar que gera palavra, inquietação, riso, razão a vida, motivação... Ia guardar pra mim. Depois ia dizer só a ti. Mais aí então, tinha sido e ainda estou provocada. Então, precisava compartilhar... Deixar partir... Ser... Não está pronto – disse. Mas a vida não está, o ser nunca o é, qu...

...

Nunca mais dediquei tempo a uma ou duas linhas. A algum relato sem sentido sobre o que sinto ou, não deveria sentir... Estou perdendo... E o ruim não é perder, é se conformar com isso. Sem luta. Sem vontade. Sem arrependimentos. O ruim é perder-se e não querer se encontrar. Evito o tempo que permite. Evito sons, sonhos, imagens, acreditar... Algumas coisas já foram... estão sendo deixadas e nem notam. Triste. Não há mais dedicar de linhas, troca de palavras, troca de olhar, sentir que não faz sentido. Cansei e parti, ou melhor, estou deixando partir. Se assim o quer? Não impeço nada. Parta. Saia. Grite. Caia. Cale. E me deixe perder partes de mim que nunca mais vou encontrar.

Não gosto

Não gosto do não encontrar. O não te ver que questiona. Indaga. Suspira. Estraga. Não gosto de gostar. Na verdade, não gosto das consequências contidas no gostar. Nada. Letra. Música. Lamento. Horas iguais... Não gosto do não encontrar. De ter que inventar desculpas a minha mente. Aos rabiscos de você que surgem sem querer num querer mútuo – mente e coração, ou, fisiologicamente falando, hipotálamo-neurotransmissores-secreção endógena-coração, enfim, pensar, idealizar, construir, e rapidamente apagar. Não gosto do não pensar. O imaginar não é o mesmo que o real. Embora, primeiro nasça no pensamento, contorne a boca, suspire e, PLUNFT, real. Desperta, desconexa, sem chão, sem sal, inerte, imaterial... Não gosto do não encontrar. Não gosto de imaginar onde está. Não gosto do sentir algo não bem e negar. Não gosto das madrugadas-sufoco-oco-caos... Não gosto de não te encontrar nas entrelinhas. Milene Paula

Linha tênue

Como estou? Quem se importa? Afinal, é frescura. Um mal humorzinho á toa. Uma desculpa para gritar, xingar, deixar de fazer... Quem dera fosse... Uma palavra entoada diferente – e choro. Um olhar na direção contrária da esperada ou não – e raiva. Uma entrelinha mal traduzida – e briga. É muito mais que um período de “tensão” pré-menstrual, que no meu caso, perdura durante. Portanto, é tensão pré, durante e, às vezes, pós-menstrual. O pior estado de espírito que pode existir. Difícil acordar e não saber como reagirá às coisas. Difícil não compreender-me além do convencional. Difícil ser incógnita, embora, alguns achem que é personalidade forte, ou coisa do tipo. Difícil chorar, rir, odiar, amar, evitar, sumir, gritar, calar, deprimir... num único suspiro. Uma vez por mês receber uma descarga hormonal de-ses-tru-tu-ra-do-ra. Um tsunami contido num corpo feminino, num corpo humano. Um desastre “natural”. Mesmo? Natural? Não é nada natural querer que as pessoas morram. De...

... (030)

Não há força nem a escrita. Busco, olho, pergunto. “– Onde foi que me perdi?” Quem é essa que vai ao espelho? Essa, a que quase nunca sorri? Parece que perdeu algo muito importante. A essência de alma, talvez. O ecoar de um grito. Uma voz... Quem é essa que já não posso lembrar? De certo era íntima. Alguém que sempre vinha me visitar. Estranho! Não sorri! Por que será? Carrega um pesar em sua face... Caminha com dificuldade... Quem será? Já não me lembro com clareza, és apenas um vulto que se faz familiar. Quisera reconhecer-te, nessa nova face minha. Ser eu... apenas lembrar. Tirar-me das memórias tristes. Implantar-me num sonhar-refém de um novo alguém que não consigo identificar. Ter, ao menos restaurado o prazer do escrito-mito-alma meu. Milene Paula 18 abr. 2013

FAMÍLIA

Um óvulo e um espermatozoide se fecundam, formam um zigoto este, por sua vez, se tornará um feto. Feto do afeto ou do desafeto, mas vindo de dois. Dois que, em algum momento de suas vidas, descobriram que menino tem “pipi” e menina “periquita” e, essa diferença permite o “encaixe”, permite que dois se tornem um e formem um terceiro. E o terceiro contem em si os dois. Carrega em si toda uma herança genética, fosse só isso, carrega em si a FAMÍLIA. Vem ao mundo sendo muito mais que código genético, vem sendo membro, vem sendo: amor, desamor, brigas, choro, riso, ausência de noites bem dormidas, enfermidade, companhia, semblante semelhante, FAMÍLIA. E família, - goste ou não, SE RESPEITA. Família dá chão, constrói valores, corrige, passa a mão na cabeça, confronta, doa, ergue, às vezes (embora não devesse) derruba... Família educa. É feita de heróis e heroínas, exemplos, conexões, de amor inexplicável. Muito mais que 21 cromossomos, um ser humano se faz de um pai e uma mãe. Que ...